Nossa História & Propósito
Quantificando os limites de resistência hidráulica de florestas na borda sul da Amazônia.
Motivação científica
A floresta amazônica, cobrindo aproximadamente 5,5 milhões de quilômetros quadrados, é o ecossistema florestal mais biodiverso do planeta. Ela absorve até um décimo das emissões globais de CO₂ e sustenta a precipitação em escala continental por meio de fortes interações entre a superfície terrestre e a atmosfera. No entanto, a região está sob pressão crescente do desmatamento e das mudanças climáticas. Há preocupações cada vez maiores de que a intensificação desses estresses possa desencadear um tipping point: um colapso em larga escala do funcionamento da floresta amazônica, associado à mortalidade generalizada de árvores, sem possibilidade de retorno à sua condição original.
Secas mais frequentes, prolongadas e intensas podem comprometer o transporte de água das raízes até as folhas, afetando o crescimento e a sobrevivência das árvores. O Projeto Seca Limite investiga até que ponto as árvores amazônicas conseguem resistir à redução prolongada da disponibilidade de água. Mais especificamente, o projeto busca compreender os limiares de perda de condutividade hidráulica que levam à mortalidade das árvores.
A borda sul da Amazônia
As florestas do sul da Amazônia situam-se nos limites climáticos do bioma,
apresentando a estação seca mais longa e as temperaturas máximas do ar mais
elevadas de toda a Amazônia. Essa região também está sujeita a um estresse
climático crescente, visto que as temperaturas da superfície terrestre estão
aumentando mais rapidamente aqui do que em outras partes da Amazônia, e as
evidências do aumento da duração da estação seca são mais claras e pronunciadas
do que em outros locais.
Outro impacto evidente na região sul da Amazônia é o
avanço da fronteira agrícola, que resultou na substituição de centenas de milhares de
hectares de floresta por monoculturas agrícolas e pecuária extensiva. Como resultado,
essa região já opera próxima aos seus limites climáticos e está sendo
progressivamente levada a ultrapassá-los, tornando-se a região amazônica com maior
probabilidade de atingir um tipping point. Assim, a Amazônia meridional
representa uma região crítica para a compreensão da sensibilidade das florestas às
mudanças ambientais globais, incluindo os efeitos das mudanças no uso da terra e
das mudanças climáticas.
Foto: Jacqueline Lisboa, WWF
Foto: Jacqueline Lisboa, WWF
Foto: Jacqueline Lisboa, WWF
Foto: Jacqueline Lisboa, WWF
Parceria UNEMAT e Universidade de LEEDS (Reino Unido)
A parceria teve início em 2008 e consolidou-se como uma das mais importantes cooperações internacionais da UNEMAT na área de ecologia de florestas tropicais. Ao longo dessa trajetória, a colaboração resultou na execução conjunta de diversos projetos de pesquisa, na publicação de cerca de uma centena de artigos científicos e na formação de dezenas de estudantes e pesquisadores brasileiros e britânicos.
Essa cooperação internacional teve papel decisivo no fortalecimento da pesquisa ecológica desenvolvida pela UNEMAT, contribuindo para ampliar sua inserção em redes científicas globais e para consolidar a capacidade institucional necessária à formação de recursos humanos em nível de doutorado. Assim, a cooperação UNEMAT–Leeds representa um exemplo bem-sucedido de internacionalização científica voltada à compreensão e à proteção das florestas tropicais em um cenário de mudanças ambientais aceleradas.
Da Amazônia para a Amazônia
Pesquisas lideradas por cientistas da Universidade de Leeds (Inglaterra) e da
Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT) revelaram a magnitude das
pressões climáticas e ecológicas sobre as florestas da borda sul-Amazônica,
mostrando por exemplo, que suas árvores apresentam altas taxas de mortalidade
e que, atualmente, experimentam elevados níveis de estresse hídrico e de
temperaturas. Entretanto, apesar de todo avanço acadêmico e científico, a imensa
maioria dos estudos de destaque e das decisões governamentais sobre a
biodiversidade, o uso e a ocupação da borda sul da Amazônia estão concentrados em
pesquisadores estrangeiros ou brasileiros de outras regiões.
As dimensões
continentais do Brasil produzem assimetrias expressivas entre as oportunidades e o
acesso de jovens cientistas à formação de qualidade. O que temos visto hoje é que,
apesar da presença de universidades e de programas de pós-graduação na
Amazônia, as decisões sobre o futuro da Amazônia estão concentradas em pessoas
que não vivem na região. O projeto Seca Limite pretende romper com este modelo e
garantir que cientistas brasileiros e estrangeiros participem das pesquisas, mas que as
decisões sobre o uso e a conservação da Amazônia sejam lideradas por cientistas da
região.
Foto: Jacqueline Lisboa, WWF
Foto: Jacqueline Lisboa, WWF
O grande experimento
O experimento está localizado na Fazenda Tanguro, em área do pesquisa mantida pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), no município de Querência, Mato Grosso.
Consiste em uma estrutura de exclusão de precipitação de 1 hectare (10.000 m²) e
uma parcela-controle próxima, do mesmo tamanho e com composição de espécies
semelhante. A estrutura experimental foi construída seguindo o mesmo desenho de
dois experimentos de seca instalados previamente no norte da Amazônia (em
Tapajós e Caxiuanã) e exclui aproximadamente 50% da chuva que chegaria ao
solo.
As parcelas experimentais foram instaladas em agosto de 2023, mas a
exclusão de precipitação começou em outubro de 2024, após um período de coleta
de dados antes da exclusão das chuvas. A construção da estrutura experimental levou quatro
meses e foi realizada por uma equipe de 10 pessoas,
liderada pelo Prof. Antonio Carlos Lola da Costa, que também liderou a construção
do experimento em Caxiuanã. Uma equipe de cinco pessoas, responsável pela
manutenção do experimento e pela coleta de dados científicos.